Início       Farlei        Física       Catequese

 
 
 

      O extraterrestre é meu irmão

 

A relação entre a astronomia e a fé em uma entrevista com o padre Funes, diretor do Observatório do Vaticano. Por Francis M. Valiante.

 

"Então nós fomos ver as estrelas". Cita Dante – o famoso verso que fecha o último canto do inferno – para descrever a missão da astronomia. Que é essencialmente a de "devolver às pessoas a justa dimensão de criaturas pequenas e frágeis contra o cenário imensuráveis de bilhões e bilhões de galáxias". E se descobríssemos não sermos os únicos a habitar o universo? A hipótese não o preocupa muito. É possível acreditar em Deus e nos extraterrestres. Podemos admitir a existência de outros mundos e outras vidas, ainda mais avançada que a nossa, sem pôr em questão a crença na criação, encarnação, redenção. Palavra do astrônomo e sacerdote. Palavra de José Gabriel Funes, diretor do Observatório do Vaticano.


Argentino, quarenta e cinco anos, jesuíta, o padre Funes desde agosto de 2006 tem as chaves da histórica sede localizada no palácio papal de Castel Gandolfo, que o Papa Pio XI concedeu ao Observatório do Vaticano em 1935. Que, em cerca de um ano, lhe restituirá o mosteiro Basilian, localizado na fronteira entre as Vilas Pontifícias e da Albânia, para onde se transferirão os estudos, os laboratórios e a biblioteca do Observatório. Combina um modo cortês e calmo no qual nota-se desapego das coisas terrenas por estar habituado em manter os olhos voltados para o alto. Um pouco filósofo e um pouco detetive, como todos os astrônomos. Contemplar o céu é para ele o mais autenticamente humano que se possa fazer. Porque – explicou ao “L'Osservatore Romano" – "dilata os nossos corações e nos ajuda a sair dos tantos infernos que a humanidade criou na terra: a violência, as guerras, a pobreza, a opressão".


Como foi o interesse da Igreja e dos Papas na astronomia?


As origens podem ser traçadas para Gregório XIII, que foi o arquiteto da reforma do calendário em 1582. Padre Christoforo Clavio, jesuíta do Colégio Romano, fez parte da comissão que estudou esta reforma. Entre os séculos XVIII e XIX surgiram três observatórios sobre a iniciativa dos Papas. Então, em 1891, numa época de conflito entre o mundo da Igreja e do mundo científico, Papa Leão XIII volta a fundar, ou melhor, reformar o Observatório do Vaticano. Ele fez isso justamente para mostrar que a Igreja nunca foi contra a ciência, mas promove uma ciência "verdadeira e sólida", segundo suas próprias palavras. O Observatório foi criado com um propósito essencialmente simbólico, mas ao longo dos anos tornou-se parte do diálogo da Igreja com o mundo.


O estudo das leis do universo aproxima ou afasta de Deus?


A astronomia tem um profundo valor humano. É uma ciência que abre o coração e a mente. Ela nos ajuda a colocar em perspectiva nossas vidas, nossas esperanças, nossos problemas. Nesse sentido – e aqui falo como padre e como jesuíta – é também um grande instrumento apostólico que pode aproximar de Deus.


No entanto, muitos astrônomos não perdem a oportunidade de defender publicamente o ateísmo.

 
Eu diria que é um pouco de mito acreditar que a astronomia promove uma visão atéia do mundo. Parece-me que quem trabalha no observatório oferece a melhor evidência de como as pessoas podem acreditar em Deus e fazer ciência de uma forma séria. Mais do que tantas outras palavras contra o nosso trabalho. Contando a credibilidade e os prêmios conquistados a nível internacional, a colaboração com colegas e instituições de todo o mundo, os resultados de nossas pesquisas e das nossas descobertas. A Igreja deixou uma marca na história da astronomia.


Há alguns exemplos?


Bastaria lembrar que umas trinta crateras da lua possuem os nomes de antigos astrônomos jesuítas. E que um asteróide do sistema solar foi nomeado ao meu antecessor na direção do Observatório, o padre George Coyne. Poderíamos também lembrar a importância de outras contribuições como as do padre O'Connell para a identificação do "raio verde", ou do irmão Consolmagno no rebaixamento de Plutão. Para não se falar do padre Corbally – vice-diretor do nosso centro astronômico de Tucson – que já trabalhou com uma equipe da NASA para a recente descoberta de asteróides remanescentes na formação de sistemas binários de estrelas.


O interesse da Igreja no estudo do universo pode ser explicado pelo fato de que a astronomia é a única ciência que tem a ver com o infinito e, em seguida, com Deus?


Para ser preciso, o universo não é infinito. É muito grande, mas é finito, porque tem uma idade: cerca de 14 bilhões de anos, segundo o nosso conhecimento mais recente. E se tem uma idade, isso significa que tem um limite também no espaço. O universo nasceu em um determinado momento e desde então tem expandido continuamente.


De que teve a sua origem?

 

Essa continua a ser o Big Bang, na minha opinião, a melhor explicação da origem do universo que temos até agora de uma perspectiva científica.

 

E então o que aconteceu?

 

Por trezentos mil anos, a matéria, a energia e a luz permaneceram unidas em uma espécie de mistura. O universo era opaco. Então eles se separaram. E agora vivemos em um universo transparente, podemos ver a luz: aquelas das galáxias mais distantes, por exemplo, que veio até nós depois de onze ou doze bilhões de anos. Devemos lembrar que a luz percorre trezentos mil quilômetros por segundo. E propriamente é esse limite que confirmar que o universo hoje observável não é infinito.


A teoria do Big Bang reforça ou contradiz a visão de fé baseada no relato bíblico da criação?


Como astrônomo, eu continuo a acreditar que Deus é o criador do universo e que nós não somos o produto do acaso, mas filhos de um pai bom, que tem para nós um projeto de amor. A Bíblia não é, fundamentalmente, um livro de ciência. Como enfatizado na Dei Verbum, é o livro da Palavra de Deus dirigida a nós homens. É uma carta de amor que Deus escreveu a seu povo, numa linguagem que remonta dois ou três mil anos atrás. Na época , obviamente, era totalmente estranho um conceito como o Big Bang. Então você não pode pedir à Bíblia uma resposta científica. Da mesma forma, nós não sabemos se em um futuro mais ou menos próximo a teoria do Big Bang será substituída por uma explicação mais abrangente e completa da origem do universo. Atualmente é a melhor e não está em contradição com a fé. É razoável.


Mas no Gênesis se fala da terra, dos animais, do homem e da mulher. Isto exclui a possibilidade da existência de outros mundos ou seres viventes no universo?


Na minha opinião esta possibilidade existe. Os astrônomos acreditam que o universo é composto de 100 bilhões de galáxias e cada uma das quais consiste em 100 bilhões de estrelas. Muitos destes, ou quase todas, poderiam ter planetas. Como se pode excluir que a vida se desenvolveu em outro lugar? Há um ramo da astronomia, a astrobiologia, que estuda justamente este aspecto e que tem feito muito progresso nos últimos anos. Ao examinar os espectros de luz proveniente de estrelas e planetas, logo poderão identificar os elementos de sua atmosfera – chamados Biomakers – e entender se existem condições para o surgimento e desenvolvimento da vida. Além das formas de vida que poderiam existir, em teoria, mesmo sem oxigênio ou hidrogênio.


Também se refere a seres semelhantes a nós ou mais avançados?


Possivelmente. Até agora não temos nenhuma prova. Mas, certamente, em um universo tão grande, não podemos excluir essa hipótese.


E isso não seria um problema para a nossa fé?


Eu penso que não. Assim como existe uma multiplicidade de criaturas na terra, assim pode haver outros seres, até mesmo inteligentes, criados por Deus. Esta não é incompatível com nossa fé, porque não podemos colocar limites à liberdade criadora de Deus. Nas palavras de São Francisco, se consideramos as criaturas terrestres como "irmão" e "irmã", porque não poderíamos falar também de um “irmão extraterrestre”? Fariam parte também da criação.


E como pensar na redenção?


Peguemos emprestado a imagem evangélica da ovelha perdida. O pastor deixa as noventa e nove no aprisco ao buscar aquela que está perdida. Pensemos que neste universo podem conter cem ovelhas, que correspondem a diferentes formas de criaturas. Nós que pertencemos à raça humana poderíamos ser apenas a ovelha perdida, os pecadores que precisam de pastor. Deus se fez homem em Jesus para nos salvar. Assim, mesmo que existissem outros seres inteligentes, não é dito que eles deveriam ter necessidade de redenção. Poderiam ter permanecido em amizade plena com o seu Criador.


Insisto: se em vez disso forem pecadores, poderia ser uma redenção também para eles?


Jesus foi encarnado uma vez por todas. A encarnação é uma única e não repetível. No entanto tenho a certeza de que eles, de algum modo, teriam a opção de receber da misericórdia de Deus como o é para nós homens.


No próximo ano estamos a comemorar o bicentenário do nascimento de Darwin e a Igreja volta a enfrentar o evolucionismo. A astronomia pode contribuir para esse confronto?


Como astrônomo posso dizer que a observação de estrelas e galáxias emerge claramente em um processo evolutivo. Este é um fato científico. Mesmo aqui, não vejo nenhuma contradição entre o que podemos aprender da evolução – porque não descende de uma ideologia absoluta – e da nossa fé em Deus. Há algumas verdades fundamentais que não mudam: Deus é o criador, há um sentido na criação, não somos filhos do caso.


Nesta base, é possível um diálogo com os homens da ciência?


Eu diria que é realmente necessário. Fé e ciência não são irreconciliáveis. Já dizia João Paulo II e Bento XVI repetiu: a fé e a razão são as duas asas com que se eleva o espírito humano. Não há contradição entre o que sabemos por meio da fé e o que podemos aprender através da ciência. Pode haver tensões ou conflitos, mas não devemos ter medo. A Igreja não deve ter medo da ciência e suas descobertas.


Como foi o caso de Galileu.


Esse é certamente um caso que tem marcado a história da comunidade da Igreja e da comunidade científica. É inútil negar que o conflito havia. Talvez, no futuro, haverá mais semelhantes. Mas penso que é hora de virar a página e olhar para o futuro em vez disso. Esse incidente deixou algumas feridas. Houve mal-entendidos. A igreja tem de certa forma reconhecido seus erros. Talvez se possa fazer melhor. Mas agora é tempo de curar estas feridas. Algo que pode ser conseguido em um ambiente de diálogo sereno, de colaboração. As pessoas precisam da ciência e da fé para ajudar uns aos outros, sem trair a clareza e a honestidade de suas posições.


Mas porque hoje é tão difícil essa colaboração?


Acredito que um dos problemas da relação entre ciência e fé é a ignorância. Por um lado, os cientistas devem aprender a ler corretamente a Bíblia e compreender as verdades da nossa fé. Em segundo lugar, teólogos e clérigos devem se atualizar sobre os progressos da ciência, para serem capazes de dar respostas eficazes às questões que esta levanta continuamente. Infelizmente, mesmo em escolas e paróquias falta um caminho que ajuda a integrar a fé e a ciência. Os católicos muitas vezes são deixados sem o conhecimento aprendido na época do catecismo. Acredito que este é um verdadeiro desafio do ponto de vista pastoral.


O que pode ser feito neste sentido, do Observatório?


João XXIII disse que a nossa missão deve ser a de explicar aos astrônomos a Igreja e a Igreja à astronomia. Somos como uma ponte, uma pequena ponte entre o mundo da ciência e a Igreja. Ao longo desta ponte há aqueles que vão em uma direção e aqueles que vão em outra. Tal como recomendado por Bento XVI para nós jesuítas na última assembléia geral, temos de ser homens nas fronteiras. Eu acredito que o Observatório tem essa missão: ser a fronteira entre o mundo da ciência e o mundo da fé, para dar testemunho de que é possível acreditar em Deus e ser bons cientistas.

 
© L’Osservatore Romano, 14 de maio de 2008.
 
 

      Exoteologia

 
Análise dos argumentos favoráveis e contrários sobre sermos visitados por extraterrestres ao longo da história da nossa fé. Por Farlei Roberto Mazzarioli.
 

Na Igreja católica a discussão sobre existência de vida extraterrestre pauta-se nos avanços atuais da ciência e o olhar teológico no assunto mostra que se ela existir, obviamente, é criada por Deus, tal como explica o padre José Gabriel Funes, diretor do Observatório do Vaticano, na entrevista "O Extraterrestre é meu irnão", em 14/05/2008, no L'Osservatore Romano. No entanto, a questão de estarmos sendo visitados por extraterrestres ao longo da história e a nossa fé estar relacionada com a fé deles ultrapassa o domínios científicos e teológicos atuais pela carencia de provas, estranheza do contexto e mesmo se for algo possível, não seria a explicação mais simples.

 

Neste artigo quero discutir e confrontar os argumentos teológicos, tal como explorar os limites em que poderiam ser compatíveis ou não com a doutrina católica. Porque fazer isso? Para a Igreja há alguns pontos literais: a ressurreição de Jesus Cristo (1Cor 15,14), a presença real de Cristo na Eucaristia e que “Cristo morreu uma única vez pelos pecados” (1Pd 3,18). Isto foi em Jerusalém a 2 milênios atrás, então o evento mais importante de universo, a salvação pelo sacrifício do Filho único de Deus, foi neste planeta, entre 100 bilhões de galáxias, com uma média de 100 bilhões de estrelas cada galáxia. Portanto, esse absurdo estatístico é proporcional ou maior ao absurdo de alguém mais ter vindo até aqui e assim haver referências bíblicas a extraterrestres.

 

"Se, a princípio, a ideia não é absurda, então

não há esperança para ela" (Albert Einstein).

 

O questionamento sobre as religiões terrestres estarem ligadas a civilizações extraterrestres vem de Erich von Däniken em 1968 com o livro “Eram os deuses astronautas?”, nascendo a teoria dos antigos astronautas. No geral, tais ideias formam um fé própria que discorda da fé católica porque em nosso contexto Jesus não é extraterrestre, a sua concepção e a ressurreição foram puramente sobrenaturais, e não há relação disso com a Santíssima Trindade. Isso é um motivo sério para a rejeição pelos teólogos da teoria dos antigos astronautas, além do contexto de folclore moderno em que a ufologia se envolve na sua investigação. Facilmente, isso viraria heresia.

 

No entanto, mesmo advertidos dos perigos, precisamos fazer a pergunta: "Se existe uma relação entre a história da nossa fé e uma civilização extraterrestre não deveria ser explícito na Bíblia?". A resposta vem da tese de livre docência de Bento XVI, eixo do documento Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, citado em suas lembranças:  “Quando a tradição é entendida como o processo vital pelo qual o Espírito Santo nos introduz em toda a verdade e nos ensina a entender o que antes ainda não éramos capazes de compreender (Jo 16,12), então o recordar-se posterior (Jo 16,4) pode reconhecer o que antes não tinha ficado perceptível, mas já estivera entregue na palavra original” (p. 67). E também foi Bento XVI que organizou o Catecismo da Igreja Católica (CIC), que não toca diretamente no assunto extraterrestre, enquanto reprova tantas outras coisas.

 

 

Agora vamos confrontar o Catecismo da Igreja Católica com a teoria dos antigos astronautas, em que a glória e a nuvem seriam mais que uma expressão simbólica, um objeto, uma nave espacial, ou não. Bem, o sacrário é símbolo e um objeto, real e metálico. Quando “a nuvem indica a presença do Espírito Santo” (CIC 555) devemos focalizar que Deus habita entre nós. Assim, poderia ser complementar ou não? Isso seria agir em nome de Deus como em Moisés (Ex 24,15-18) e na dedicação ao templo quando Deus “habitava em densa nuvem” (2Rs 8,14). Entendemos a nuvem como um símbolo que “revela o Deus vivo e salvador, escondendo a transcendência de sua Glória” (CIC 697) e a palavra "glória", no auge do seu significado, mostra que a glória de Cristo é o Amor que vence a cruz! Na glória está o amor.

 

Algo tão extraordinário seria relatado várias vezes ao longo da história? Em obras de arte, como a “Crucificação” de Monastero di Visoki Decani, em Kosovo,  a imagem parece sustentar essa hipótese e deve ser vistas com senso crítico. Um bom trabalho que encontrei na internet é o do italiano Diego Cuoghi, disponível no site www.sprezzatura.it. O seu ceticismo nos ressalta o valor de analisar o contexto, comparando as obras da mesma cultura entre si. Pois na obra a seguir parece haver duas naves tripuladas, mas encontramos em outras pinturas sacras sinais de serem mais um símbolo comum do Sol e da Lua com rostos. Ou talvez, fosse o disfarce usado pelo autor para uma ideia dele, sendo esta verídica ou não?

 

Imagem da Crucificação de Monastero di Visoki Decani, em Kosovo, com uma

montagem de outra obra da época, ambas de www.sprezzatura.it.

 

Madonna con Bambino e San Giovannino, atribuída a Sebastiano Mainardi e

a Jacopo del Sellaio. Fotografia e montagem de autor desconhecido.  

 

Nesta obra renascentista, acima, a “Madonna con Bambino e San Giovannino”, o artista mostra a glória de Deus no nascimento de Jesus como uma nuvem. Talvez o artista viu nuvens lenticulares e quis demonstrar a beleza da natureza. Ou talvez fosse somente a mesma expressão da auréola que vemos na cabeça de Maria, e esta não tem como ser literal. Os raios saindo da nuvem são no mesmo estilo que outras decorações abundantes no quadro, assim não são prova de ser uma nave espacial. Porém se alguém visse uma nave extraterrestre naquela época a retrataria exatamente desta forma e neste contexto? O que a história nos diz? Eppur si muove” (Galileu).

 

Outra coisa interessante é a “estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria” (Mt 2,9-10) e também sobre alguns pastores “a glória do Senhor os envolveu em luz” (Lc 2,9). Depois de cantarem em coral “os anjos se afastaram, voltando para o céu” (Lc 2,15). Poderia ser um cometa, meteoros, ou a melhor, uma conjunção planetária? Ainda assim na mais simples explicação o autor quis dizer com a estrela que o verdadeiro Filho de Deus é Jesus de Nazaré e não o imperador Augusto (Lc 2,1), que na passagem de um cometa em 44 a.C. usou isso como  argumento de ser ele o Filho de Deus. Veja uma moeda da época a seguir.

          São Bento

Moeda do imperado Augusto                                                      Visão de São Bento

 

O caso teologicamente mais polêmico é o do papa São Gregório Magno relatando que São Bento “viu projetar-se do alto uma luz que, difundindo-se em redor, afugentava todas as trevas da noite e brilhava com tanto fulgor que, resplandecendo no meio da escuridão, era superior à do dia” que resultou em uma visão interior da alma de São Germano “vendo o globo de fogo, via também os anjos que subiam ao céu” na luz de Deus. “Ao brilhar aquela luz exteriormente ante seus olhos, projetou-se por sua vez uma luz interior em sua mente”, afirmou o papa em Vida e e Milagres de São Bento, p. 116. Seria um cometa, um meteoro explodindo ou simplesmente tudo culpa do escriba que inventou uma descrição poética?

 

No site do Vaticano encontramos a Mensagem de Fátima, em que Bento XVI explica que existem três tipos distintos de visões: a visão exterior (pelos olhos), a visão interior (formada na mente) e a visão intelectual (entender). Agora podemos aplicar ao nosso assunto, pois a visão de São Bento entra em consonância com a conversão de São Paulo, em At 9,3-7; 22,6-10; 26,13-18. Paulo “viu-se cercado por uma luz que vinha do céu” (At 9,3) envolvendo ele e seus companheiros (At 26,13) que também “viam a luz, mas não ouviam a voz” (At 22,9). Porém eles devem ter ouvido alguma coisa porque “ouviam a voz [= barulho], mas não viam ninguém” (At 9,7) na visão interior, quando Jesus falava a São Paulo. Atualmente se entende isso como apenas um modo de falar do autor, mas a convergência da hipótese extraterrestre é impressionante.

 

Imagem do jornal português, O Século, sobre O Milagre de Fátima. Clique na imagem e leia.

 

Toda obra histórica deve ser lida em seu contexto, mas se existir um relato semelhante em tempo atual, em uma linguagem moderna? Isso mudaria alguma coisa na interpretação atual? O jornal português “O Século” descreve um disco de prata fosca (2Mc 5,3) fazendo movimentos estranhos no céu, que entenderam ser o sol no milagre de Fátima em 13/10/1917. Existe algo mais semelhante? Em Josué (Js 10,7-15), o sol ficou parado no meio do céu para ajudar na batalha e  em outros livros vemos que Deus “fez a sombra recuar dez degraus que o sol já havia descido” (2Rs 20,11; Is 38,8) no relógio de sol. Aqui devemos lembrar que Galileu foi condenado em 1632 pela inquisição por sugerir uma interpretação dessa passagembdiferente do que era na época.

 

    

 

No caso de Gelileu Galilei a Igreja foi excessivamente prudente sobre o modelo heliocêntrico, porém mesmo sem todas as provas ele ainda estava certo! A Igreja só acreditou no heliocentrismo quando todas as provas cientificas foram concluídas, o que só ocorreu com o experimento do pêndulo de Foucault em 1851. Devemos lembrar: "Se eu não ver as marcas dos pregos [...] eu não acreditarei" (Jo 20,25). Mas porque isso? Teorias científicas são tranistórias e a fé é permanente. Quanto mais for baseado no mesmo contexto bíblico mais confiável será a interpretação. Por isso, a seguir existe um infográfico comparando os textos citados pela análise da linguagem e por meio de paralelos teológicos na Bíblia e na história da Igreja.

 

Análise dos textos sobre alegórico ou literal. Veja o original em PowerPoint.

 

 

Será que a visão do globo de fogo de São Bento se conecta diretamente à quinta aparição em Fátima? Desta vez em 13 de setembro de 1917, onde era possível ver as “estrelas” ao meio-dia e outra coisa... O monsenhor João Quaresma, vigário geral da diocese de Leiria, e o monsenhor Manuel do Carmo Góis relatam “um globo luminoso que se deslocava do oriente para o ocidente, movendo-se com lentidão e majestade através do espaço” (Os Milagres de Fátima, p. 149). Aquela atmosfera poderia ter produzido o raro fenômeno do raio bola? Estes relâmpagos globulares estão associados a tempestades, sendo que em Fátima são relatados fleches de relâmpagos e som de zumbido. Seria isso? Ou seria o fenômeno do sol duplo, a poeira na alta atmosfera refletindo a luz do sol e formando outra imagem trêmula dele? Ou atordoamento de olhar diretamente o sol?

 

O relâmpago globular é uma esfera de alguns centímetros formada por material ionizado que dura segundos ou poucos minutos. Ocorre na natureza ou pode ser reproduzido em laboratório com descargas elétricas. Ele tem movimento aleatório, barulho de zumbido, cheiro de ozônio ou enxofre, interfere em rádio e pode explodir. John Abrahamson e James Dinniss, da Nova Zelândia, o explicaram como sendo vapor de silício formado após um relâmpago atingir o solo, que assume a forma de uma esfera por causa da carga elétrica na superfície e gera brilho na interação com o oxigênio. A UFPE produziu pequenas esferas que quicavam, como mostra a figura a seguir.

 

Imgens do raio bola da UFPE, pela Globo News, e um relato antigo de raio bola.

Ainda temos a questão dos anjos, que significa embaixador em hebraico e mensageiro em grego. “Porventura não são todos eles espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14). Porém, a amplitude da palavra anjo seria também para toda alma servidora no projeto da salvação? No mesmo sentido de amplitude de palavra temos “irmão”, que em aramaico “podia indicar não somente filhos dos mesmos pais, mas também os primos ou parentes mais distantes” (Sou Católico, p. 143). Assim os irmãos de Jesus citados em Mc 3,31-35; Jo 2,12; 7,2-10; At 1,14; Gl 1,19; 1Cor 9,5 são no mesmo sentido de parentes em Gn 13,8; 14,16; 29,15.

 

“A existência de seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé” (CIC 328), em que “como criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e de vontade: são criaturas pessoais e imortais” (CIC 330).  “Anjo é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz” (Santo Agostinho, citado em CIC 329). Encaixar os anjos nessa hipótese força bastante ao ligar puro espírito com alma pura, e assim vê-los como pessoas de muita fé (Gn 18,8) juntos com os seres puramente espirituais (Tb 12,19), como focaliza a tradição da Igreja.

 

 

“Por isso, devemos levar mais a série a mensagem que ouvimos, se não quisermos perder o rumo. De fato, se a palavra transmitida por meio dos anjos [Hb 9,10] se mostrou válida, e toda transgressão e desobediência recebeu um justo castigo, como poderemos nós escapar do castigo, se não dermos atenção a uma salvação tão grande? De fato, depois de ter sido promulgada no início pelo Senhor [através dos anjos], essa mesma salvação foi confirmada no meio de nós por aqueles que tinham ouvido; e Deus apoiava o testemunho deles, mediante sinais, prodígios e milagres de todo tipo e dons do Espírito Santo” (Hb 2,1-4). 

 

Podemos dizer que Jesus “está acima dos anjos” (Hb 1,4), tal que Deus disse: “Todos os anjos devem adorá-lo” (Hb 1,6). E nós temos uma aliança desde Abraão, pois “nele serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 18,18), tal que no tempo de Moisés Deus ouviu as preces de seu povo e “enviou um anjo que os libertou do Egito” (cf. Nm 20,16). Dos quais foram feridos os primogênitos pelo “Exterminador” (Ex 12,23), “anjos portadores de desgraças” (Sl 78,49), contra aqueles que mataram as crianças hebraicas (Ex 1,22). O quanto esse episódio é literal ou não? Não se sabe, a certeza é que até isso é por misericórdia (Sb 4,7-20). Se lemos que “tais coisas aconteceram a eles como exemplo” (1Cor 10,11), em que sentido seria?

   

A paz é fruto da justiça” (Is 32,17). 

 

Quando falamos de ufologia precisamos lembrar do livro “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, de 1898, narrando uma invasão da Terra pelos marcianos em naves e lançando raios mortais. E a “glória do Senhor se manifestou a toda comunidade” (Nm 16,19) e depois “um fogo enviado pelo Senhor devorou” os baderneiros  (Nm 16,35). Se colocarmos isso em paralelo com “O Código da Vinci” de Dan Brown, então veríamos mais uma forma neste livro de atacar a confiança na Igreja? Teria o Maligno posto o dedinho sujo nisso? Ele tem mais o que fazer? Isso é estranho, mas talvez essa obra de H. G. Wells seja mais um ataque contra a nossa fé.


“Não sejas humilde com a tua sabedoria, para que
humilhado, não te seduza a insensatez
” (Eclo 13,11). 

 

Como seria a filosofia, a ética, a moral, a tolerância ou não à injustiça, de uma civilização milhões de anos a nossa frente? Porque se existir algo de verdade na presença de extraterrestres no narrativa bíblica, então devemos questionar sobre o ocorrido de Sodoma e Gomorra. A semelhança da descrição da destruição destas duas cidades é muito parecida com um ataque nuclear, lógico que são explicações mais simples: ser apenas linguagem poética, uma chuva de meteoros ou um sismo, que é um tremor de terra que pode liberar gás metano. Esta região fica sobre uma falha tectônica e sofreu um abaixamento geológico. E se foi ataque nuclear, seria um genocídio! Como explicar isso?  Seria em legítima defesa da humanidade? Uma advertência? Como explicar?!

 

 

“O sol estava nascendo quando Ló entrou em Segor [após 24 horas saído de Sodoma]. O Senhor fez [ou ordenou aos anjos?] então chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra. Destruiu as cidades e toda a região, junto com os habitantes das cidades e até a vegetação do solo. Ora, a mulher de Ló olhou para trás [ou saiu da cidade para ver?] e tornou-se uma estátua de sal [foi carbonizada?]. Abraão levantou-se bem cedo e foi até o local onde antes havia estado com o Senhor. Deixando parar o olhar na direção de Sodoma e Gomorra e de toda a região [a sudeste do Mar Morto], viu levantar-se do chão uma densa fumaça, como a fumaça de uma fornalha” (Gn 19,23-28).

 

Depois de tudo que vimos e diante de todos os argumentos apresentados aqui, como um católico deve se portar? Com prudência, obviamente. Na ausência de provas e pelo simples fato de que a Igreja tem mais o quê fazer, a questão teológica fica limitada a uma “paciência a toda prova” (2Cor 12,12). Mesmo que seja verdade, nunca faltou o que era necessário para a Igreja no projeto de salvação das almas, a não ser que, esteja chegando o momento de falar sobre isso. Porém, isso poderia ser apenas presunção... O que fazer? Deus sempre iluminou a Igrejacontra todas as heresias  (1Cor 10,13) e se a hipótese for, em absoluto, uma heresia, então a Igreja será iluminada sobre isso, mas se ela não for uma heresia, então Deus nunca iluminará contra os argumentos que as sustentam, ficando os contra-argumentos como sino ruidoso (1Cor 13,1).

 

São Cipriano disse que "fora da Igreja não há salvação" e hoje interpretamos melhor, pois igreja é "comunidade" de amor, justiça e fraternidade, e assim, fora dessa vivência não há salvação. Então se perguntamos o quê fazer frente ao absurdo da hipótese extraterrestre a resposta é simples e sempre a mesma: confie na Igreja e deposite a questão nas mãos de Deus. Não pense no assunto por mera curiosidade, mas unicamente para dar uma resposta ao que Deus lhe plantar no coração.

Se essa hipótese for verdadeira ou falsa, nunca terá nada a acrescentar à verdade já revelada em Cristo, apenas poderá nos ajudar a interpretar melhor o que já sabemos. Isso é sensato?

 

A melhor forma de esconder um segredo é contar

a verdade de uma forma que ninguém acredite?

 

Eu recomendo três coisas: novo olhar no estudo teológico da questão; reflexão orante porque isso está muito a frente de nosso tempo; simplesmente coerência como estratégia de ação, evitando a prática de excentricidades. Não posso negar a profundidade do meu sentimento sobre existir algo de verdade na hipótese, tal como, igualmente tenho certeza de que é essencialmente diferente de tudo o que já foi falado até então sobre o assunto, e que a coerência na fé é o caminho.

 

Valorizo o esforço dos ufólogos sérios pela liberdade de informação, mas acho que andei falando de mais porque se tudo isso tiver algo de verdade, então há motivos de sobra para as pessoas não se sentirem bem ao pensar no assunto. Isso meche fundo e traz sérias e caras consequências... Portanto, por favor, olhem atentamente a imagem a seguir.

 

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. 4ª edição. 2006. Editora Canção Nova.

2. Bíblia Sagrada. Edição pastoral. Intratext. 2002. Editora Paulus. www.paulus.com.br

3. Catecismo da Igreja Católica. Edição Típica Vaticana. 1997. Edições Loyola.

4. Vida e milagres de São Bento. Papa São Gregório Magno. 2006. Editora Artpress.
5. Lembranças de minha vida. Joseph Ratzinger - Bento XVI. 2006. Editora Paulinas.
6. Arte e ufo? Não obrigado, apenas arte por favor... Diego Cuoghi. www.sprezzatura.it
7. A invasão de Wells. Kentaro Mori. www.ceticismoaberto.com
8. O extraterrestre é meu irmão. Francis M. Valiante. 2008. www.vatican.va
9. O milagre de Fátima. Avelino de Almeida. 1917. O Século.
10. Os milagres de Fátima. Renzo Allegri e Roberto Allegri. 2000. Editora Paulinas.
11. As aparições e a mensagem de Fátima conforme os escritos da irmã Lúcia. Antônio Augusto  
      Borelli Machado. 1996. Editora Artpress.
12. Sou Católico: Vivo minha Fé. 2007. Edições CNBB.
13. UFO - Revista Brasileira de Ufologia. Ano XXV. Número 143. Junho 2008. Páginas 20 a 28.
14. Sociedade Brasileira de Física. 10/10/2007. pion.sbfisica.org.br
 
 

      Atividade

  

Escreva um comentário de 10 a 15 linhas no Fórum sobre a entrevista com o pe. Funes e sobre o comentário que eu fiz do assunto, que foi para águas mais profundas... Se este for baseado em argumentos inteligentes, mesmo se totalmente contrário a qualquer coisa que tenha sido dita, poderá ser anexado nesta página. Não se esqueça de se identificar corretamente.